
Existem lições de vida que dificilmente conseguimos esquecer ou até reparar.
Uma dessas lições já-me foi dada por várias pessoas. A mais marcante foi certamente da minha avó.
A minha avó era uma mulher como existem poucas. Nos anos 50, em Portugal, ficou viúva com 3 filhos. Para além de os conseguir alimentar, conseguiu ainda abrir um negócio (um cabeleireiro) que prosperou durante 30 anos. Se hoje é dificil abrir uma loja, nos anos 50 em Portugal para uma mulher era perto do impossível.
Na adolescência nunca damos muita atenção aos nossos avós. Queremos é sair com os amigos, ouvir música e fazer estupidezes fora de casa.
Quando a minha avó morreu e começaram as partilhas encontraram um livro que a minha avó lia com regularidade. Lá dentro tinha um papel e um envelope. No papel pedia que me entregassem o envelope. Abri o envelope e encontrei um poema que o meu pai escreveu à minha avó quando tinha 9 anos. Era um poema que tinha sido oferecido como prenda do dia da mãe de 1955, curiosamente o ano em que ela ficou viúva. A minha avó não deixou mais nenhum papel para ninguém, nem a filhos nem a outros netos, deixou só a mim.
Durante anos sentia que a minha avó olhava para mim de maneira diferente daquela que olhava para os meus primos. Provavelmente sentiria que eu era diferente ou então teria mais esperanças em mim do que nos meus primos.
Independentemente do que ela sentiria tenho a certeza que ela apreciava mais a minha companhia do que muita gente que a rodeava. Sabia que podia conversar comigo sobre muitas coisas que não banalidades habituais.
Eu em vez de corresponder e dar um pouco do meu tempo, daquelas muitas horas onde não se faz mais nada senão olhar para a televisão, fazia exactamente isto que acabei de descrever. Cada dia que passa sinto mais falta da minha avó, das suas conversas e por ter cada vez mais consciência que ela era uma num milhão. Tenho pena de não ter aproveitado a sua companhia até ao último segundo. Agora não resta mais nada senão suspirar.
A grande lição que tirei daqui, e de outros exemplos parecidos mas não tão marcantes, é que é preciso dar valor às pessoas enquanto as temos por perto. Antes de mais, é preciso saber escolher quem nos faz feliz e ter essas pessoas por perto. Depois é saber aproveitar a companhia, a amizade e os momentos.
Por essa razão penso sempre muito bem no que vou dizer quando me aborreço com alguém. Não vale a pena magoar ninguém a não ser que em caso de absoluta necessidade.
Tenho saudades da minha avó. Da forma como ela falava comigo, contava a história da vida dela, me tratava como um adulto antes de o ser, da alegria que ela sentia com a minha presença, da sua maneira de ser interessante. Quanto mais velho fico, mais percebo como ela era importante. Todos os segundos da minha vida.......


1 comentário:
Há quem tenha a sorte de ter tido uma avó que quase parecia nossa mãe e que nos faz tanta falta como ela...
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